ALFA-EJA Brasil valoriza trajetórias de vida e fortalece a aprendizagem por meio de oficinas de cartas e diálogos
Ao longo dos meses de abril e maio, o Projeto ALFA-EJA Brasil realizou oficinas formativas com estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em 15 municípios do Norte e Nordeste, promovendo escuta ativa, valorização de trajetórias e fortalecimento do protagonismo dos educandos. As atividades estimularam os participantes a compartilharem memórias, transformarem suas histórias em cartas e construírem reflexões coletivas sobre seus territórios, saberes e expectativas para o futuro.
A iniciativa reuniu participantes de diferentes contextos sociais e culturais, criando espaços de diálogo e reflexão. Entre os municípios atendidos estão: Carauari, Coari, Oiapoque, Belém, Fortaleza, Caucaia, Icapuí, Alto do Rodrigues, Conde, Araçás, São Francisco do Conde, Santa Luzia do Itanhy, Brejo Grande, Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho.
Oficina 1: “Paulo Freire e a gente – o mundo que a gente já lê”
A primeira oficina teve como foco o acolhimento dos educandos e a valorização dos saberes construídos ao longo da vida, tomando como referência o pensamento de Paulo Freire.
A partir da pergunta mobilizadora — “Na sua trajetória de vida, o que você aprendeu que não foi na escola?” — os participantes compartilharam experiências como cozinhar, construir, costurar, plantar e cuidar. Esses saberes foram registrados coletivamente, formando um verdadeiro “currículo da vida”.
A metodologia privilegiou a escuta sensível, o respeito às trajetórias individuais e a valorização da oralidade. Durante a atividade, os educandos refletiram sobre a “Leitura do Mundo”, reconhecendo que os saberes são construídos também nas relações familiares, no trabalho, na comunidade e nas vivências cotidianas, muito antes e para além da escolarização formal.
A oficina também introduziu, de forma acessível, os princípios dos Círculos de Cultura Freiriano, fortalecendo a autoestima dos participantes e reafirmando o papel de cada um como sujeito de saber.
Oficina 2: “Memórias – de si e do seu território”
Na segunda oficina, o conceito de Leitura do Mundo foi aprofundado a partir do território e das memórias dos educandos. Por meio de perguntas: “Como era o seu bairro antes?” e “Como ele é hoje?”, os participantes refletiram sobre transformações sociais e culturais de suas comunidades. A atividade estimulou a memória afetiva e o sentimento de pertencimento.
Os educandos também foram convidados a identificar como os conhecimentos construídos em suas experiências de vida dialogam com diferentes áreas do conhecimento escolar — como matemática, português, ciências e história.
Como resultado, cada participante iniciou o preenchimento do instrumento “Leitura de Quem Sou Eu!”, registrando sua trajetória, expectativas e motivações para retornar à escola. O processo contou com apoio individualizado, respeitando os diferentes níveis de letramento.
Ao final, foi construído um grande mural coletivo, reunindo palavras, histórias e saberes, simbolizando a diversidade e a riqueza das experiências compartilhadas.
Oficina 3: “Diálogos em muitas vozes – a carta que não precisa só de letras”
A terceira oficina ampliou as possibilidades de expressão dos educandos ao trabalhar o direito à palavra por meio de diferentes linguagens. Inspirados pelo conceito freiriano de “esperançar”, os participantes produziram cartas destinadas a familiares, a si mesmos no passado ou a trabalhadores da Petrobras (apoiadora do Projeto), escolhendo livremente entre formatos como áudio, desenho, colagem, ditado ou escrita. A atividade valorizou diferentes níveis de letramento, respeitando os diferentes tempos e percursos de aprendizagem, e reforçou a ideia de que comunicar experiências, sentimentos e sonhos é um direito de todos, independentemente da forma de expressão utilizada.
Oficina 4: “Socializando nossas cartas – do diálogo pessoal ao coletivo”
Na quarta oficina, os educandos compartilharam as cartas produzidas anteriormente em um ambiente de acolhimento e escuta sensível. As produções foram reunidas no “Varal de Esperançar”, símbolo das histórias, memórias e expectativas do grupo. A partir da socialização das cartas, os participantes refletiram sobre a comunicação como encontro, troca de experiências e construção coletiva de sentidos. A atividade também permitiu identificar sentimentos, temas e reivindicações comuns, fortalecendo o pertencimento e o reconhecimento de experiências compartilhadas.
Histórias que ganham voz e novos horizontes
A agricultora e educanda Elisângela Araújo de Oliveira, moradora de Coari (AM), conta que uma das atividades que mais a marcou foi a produção das cartas. Segundo ela, a experiência ajudou a fortalecer sonhos e projetos para o futuro. "Quero escrever um diário da minha vida e ser professora", afirmou.
Em Cabo de Santo Agostinho (PE), a educanda Mara Soares também se emocionou ao participar da oficina. Ao escrever uma carta para a filha, ela relembrou sua trajetória de retorno aos estudos após três décadas longe da escola. "Demorei para escrever porque só depois de 30 anos retomei os estudos, aprendendo a ler e a escrever. Será muito útil para minha vida particular e social", relatou.
Histórias como essas mostram como o ALFA-EJA Brasil contribui para fortalecer trajetórias educativas, reconhece os saberes construídos ao longo da vida e cria oportunidades para novas aprendizagens, sonhos e projetos de futuro.







