Nota de repúdio

Por meio de educadoras(es) da Diretoria Regional de Educação de Campo Limpo da cidade de São Paulo, tomamos conhecimento de mais um ato de difamação e calúnia contra Paulo Freire feito por um servidor público da DRE.

 

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     Por meio de educadoras(es) da Diretoria Regional de Educação de Campo Limpo da cidade de São Paulo, tomamos conhecimento de mais um ato de difamação e calúnia contra Paulo Freire feito por um servidor público da DRE. Somado ao profundo desrespeito ao patrono da educação brasileira e do município de São Paulo, ele, também, desferiu ofensas e acusações descabidas a Marielle Franco.

 

     Paulo Freire e Marielle Franco - dois seres humanos que fizeram de suas trajetórias de vida a busca permanente pelo direito de sonhar por um mundo melhor e de lutar por ele - não podem continuar sendo desrespeitados dessa forma. Nosso mais enfático repúdio a esses ataques e nossa mais veemente exigência de que o autor dessas calúnias e desrespeitos responda pelos seus atos e que sejam tomadas as providências cabíveis dos órgãos educacionais a que ele está vinculado. Estamos certos de que ele não representa o pensamento das(os) educadoras(es) e nem dos que hoje estão à frente da Secretaria da Educação.

 

     Somos uma organização não-governamental com 28 anos de existência, criada para continuar e reinventar o legado freiriano. Abrigamos a biblioteca do educador brasileiro e grande parte de seu acervo, reconhecido pela Unesco como patrimônio documental da humanidade. Mais de 5 mil pessoas já passaram pelo Centro de Referência Paulo Freire. Um quinto dessas pessoas são estrangeiros representantes de mais de 40 países, dentre eles: Inglaterra, Itália, Índia, Japão, China, Canadá, França, EUA, Suécia, Suíça, Itália e tantos outros. Atualmente existem Institutos Paulo Freire presentes em 19 países ao redor do mundo, independentes institucionalmente, mas orientados pelos mesmos princípios éticos, políticos e pedagógicos. Localizam-se na Argentina, Áustria, Brasil, Cabo Verde, Chile, China, Colômbia, Egito, Espanha, EUA, Índia, Inglaterra, Itália, Malta, Peru, Portugal, República Dominicana e França. Temos o privilégio de, no IPF, testemunhar diariamente o respeito inquestionável que este grande educador conquistou mundialmente pelo trabalho realizado.

 

     Paulo Freire, mesmo com seu reconhecimento internacional por suas contribuições às ideias pedagógicas, vem sendo atacado por pessoas alimentadas de ódio e autorizadas a violar todas as formas de direitos. Quando um plano de governo contempla em suas páginas o expurgo de Paulo Freire da educação brasileira, não é difícil entender as razões de tantas violências e ataques infundados. Vivemos tempos de perplexidades sucessivas. E, recentemente, o conhecimento de mais um fato absolutamente condenável de ofensa ao educador Paulo Freire e à Marielle Franco nos deixa atônitos e, por isso, vimos aqui, publicamente, repudiar qualquer agressão e desrespeito a estes seres humanos símbolos da paz, do diálogo e da justiça social.

 

     Não é a primeira vez que suas ideias são ameaçadas. O autor de Pedagogia do oprimido, obra que, em 2018, completou 50 anos, foi preso e exilado no período da ditadura. Sua resposta ao cerceamento foi um convite ao diálogo e à coragem de lutar; frente à violência, ao silenciamento, a luta pelo direito à liberdade de expressão, ao pensamento crítico. Paulo Freire sempre defendeu o diálogo de saberes: o saber científico, o saber sensível, o saber técnico, tecnológico, o saber popular, sem discriminação, respeitando e valorizando a diversidade e os direitos humanos. Como um ser humano conectivo, esperançoso, jamais deixou de acreditar na capacidade da humanidade de criar “um mundo em que seja menos difícil amar”, como escreveu, no exílio, em 1968, no final de seu livro mais conhecido: Pedagogia do oprimido.

 

     Diante das atuais ameaças à democracia e aos direitos humanos, diante de mais esse fato tornado público por educadoras(es) da DRE Campo Limpo, sentimo-nos esperançosos com a necessária, incisiva e pronta reação daquelas(es) que testemunharam esse profundo desrespeito - essa repugnante atitude de desqualificar as pessoas, usando fake news e outros expedientes abomináveis, enfim, diante de prática tão condenável, somamo-nos às(aos) educadoras(es) que, como nós, defendem e lutam pela democracia, pela justiça social, pela educação emancipadora, pela educação como prática da liberdade e reiteramos o pedido para que sejam tomadas medidas cabíveis pelos órgãos competentes para apurar as ações de desrespeito à memória e à história de representantes do que de melhor esse país produziu.

 

     Não se expurga o que está entranhado no coração e na mente das pessoas carregadas de amor e de coragem de defender aquilo que as move, por isso, aqui estamos. Não arrancarão de nós os nossos sonhos, nossa esperança, nossa capacidade de indignação. Marielle e Paulo Freire não lutaram em vão! Estamos aqui para dar continuidade ao legado deles que deram vida à certeza de que "o mundo não é; o mundo está sendo" e de que outras realidades, mais justas e sustentáveis, são possíveis. "Amanhã há de ser outro dia!" Paulo Freire presente! Marielle Franco presente!

 

Instituto Paulo Freire

 

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