Brasil precisa ampliar investimentos na educação de jovens e adultos, alertam especialistas

No Dia Internacional da Alfabetização, especialistas, entre eles, Sonia Couto, do IPF, afirmam que o país precisa intensificar seus investimentos em políticas públicas de Educação de Jovens e Adultos.

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     Mesmo com a queda da taxa de analfabetismo entre maiores de 15 anos na última década, o Brasil permanece entre os dez países do mundo com maior número de analfabetos adultos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

 

     No Dia Internacional da Alfabetização, lembrado nesta sexta-feira (8), especialistas ouvidos pelo Centro de Informação das Nações Unidas (UNIC Rio) afirmam que o país precisa intensificar seus investimentos na qualidade da educação, de forma a combater a evasão escolar, e em políticas públicas para Educação de Jovens e Adultos (EJA).“

 

     Como o Brasil tem problema de qualidade na educação, muitos jovens quando chegam ao final do ensino fundamental abandonam a escola, tornando-se jovens que vão ser adultos necessitando de EJA no futuro”, explicou Rebeca Otero, coordenadora de educação da UNESCO no Brasil.“

 

     Se a escola tem uma qualidade deficiente, o jovem não aprende. E quando vai prosseguindo, chega a um determinado momento em que ele abandona pela dificuldade de aprender. Isso ocorre (principalmente) no início da adolescência”, lembrou Rebeca.

 

     O Brasil aparece na oitava posição entre os dez países que respondem por 72% da população mundial de adultos analfabetos do mundo, segundo o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos (EPT) da UNESCO de 2014. O país fica atrás de Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia e Egito, e à frente de Indonésia e República Democrática do Congo (RDC).

 

     O país assinou em 2000 a Declaração de Dakar “Educação para Todos”, comprometendo-se a reduzir o analfabetismo em pelo menos 50% até 2015, o que equivaleria a uma taxa de 6,7%. No entanto, a meta não foi atingida.

 

     De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo entre maiores de 15 anos no Brasil é de 8%, o equivalente a cerca de 13 milhões de pessoas. O percentual representa uma queda de 3,1 pontos em 10 anos, já que em 2005 estava em 11,1%.

 

     Segundo a coordenadora de educação da UNESCO, a população rural, mais pobre, negra e das periferias dos centros urbanos são as mais afetadas pelo analfabetismo. “E a própria situação de analfabetismo remete a um ganho econômico menor”, declarou.

 

     Sonia Couto, coordenadora do Centro de Referência Paulo Freire, do Instituto Paulo Freire, lembra a necessidade de mais investimentos em políticas públicas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil para a reversão desse quadro. “Há uma descontinuidade dos programas e projetos. Não existe uma política de Estado e, sim, de governos em relação à EJA”, disse.

 

     Segundo Sonia, os programas existentes não se adequam ao público da EJA, que necessita de maior flexibilidade na oferta, uma vez que essa modalidade atende jovens e adultos trabalhadores, com horários subordinados às demandas do mundo do trabalho.

 

     “Será necessário ampliar a oferta de cursos e formatá-los com tempos e espaços flexíveis. Isso vai demandar, para além da oferta nas escolas, a criação de centros de formação para jovens e adultos, com horário flexível, reconhecimento de saberes e formas alternativas de avaliação e certificação.”

 

     “Na era digital em que vivemos, temos à nossa disposição tecnologias que podem aproximar quem quer aprender de quem quer ensinar, permitindo a criação de uma grande rede colaborativa em defesa da alfabetização de adultos”, disse Sonia. “Isso não exime a responsabilidade do Estado, mas amplia a oferta, chegando aos lugares mais remotos e com maior carência de alfabetização do público adulto”, completou. 

 

Alfabetização em um mundo digital

 

     Em mensagem para o Dia Internacional da Alfabetização, a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, afirmou que as novas tecnologias estão abrindo amplas oportunidades para melhoria de vidas e para a conexão em âmbito global. No entanto, elas também podem marginalizar aqueles que não têm habilidades essenciais, como a alfabetização.“

 

     Tradicionalmente, tem-se considerado a alfabetização como um conjunto de habilidades de ler, escrever e contar, aplicadas em um determinado contexto”, disse Irina. “As sociedades do conhecimento intermediadas digitalmente estão transformando o significado de ser alfabetizado, demandando mais e melhores habilidades de alfabetização. Ao mesmo tempo, em troca disso, a tecnologia pode servir para aprimorar o desenvolvimento da alfabetização”, afirmou.

 

     No mundo, há cerca de 750 milhões de adultos analfabetos. Cerca de 264 milhões de crianças e jovens não se beneficiam da educação escolar. Além disso, pesquisas internacionais mostram que uma expressiva parcela da população de jovens e adultos, inclusive nos países desenvolvidos, é deficiente em relação às habilidades digitais básicas necessárias para trabalhar e viver plenamente nas sociedades atuais, alertou a UNESCO. “Suprir essa falta de habilidades é um imperativo educacional e de desenvolvimento”, disse Irina.

 

     De acordo com a diretora-geral da UNESCO, para criar e aproveitar novas oportunidades de avanço em direção ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 (ODS 4), sobre educação e aprendizagem ao longo da vida para todos, são necessárias ações coletivas. “Hoje, parcerias entre os governos, a sociedade civil e o setor privado são essenciais para promover a alfabetização em um mundo digital”.

 

     “O Dia Internacional da Alfabetização oferece um momento para revermos os progressos e nos unirmos para enfrentar os desafios futuros. Neste ano, o evento é dedicado à melhor compreensão do tipo de alfabetização que é necessário, em um mundo digital, para se construir sociedades mais inclusivas, igualitárias e sustentáveis”, concluiu.

 

Educação para a democracia e o desenvolvimento

 

     A alfabetização é um componente essencial do direito à educação conforme reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. O direito à alfabetização apoia a consecução de outros direitos humanos, lembrou a UNESCO.

 

     Dessa forma, jovens e adultos com dificuldade de leitura, escrita e operações com números são mais vulneráveis à pobreza, à exclusão social, ao desemprego, a problemas de saúde, a mudanças demográficas, ao deslocamento e à migração e aos impactos de desastres naturais e provocados pelo homem.

 

     “A própria educação e alfabetização são fundamentais para alcançar todos os outros Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, afirmou Rebeca, da UNESCO no Brasil.

 

     Para Sonia, do Instituto Paulo Freire, a construção da democracia passa pela alfabetização de um povo. “O analfabetismo dificulta a participação ativa dos sujeitos visando a uma sociedade justa, democrática, plural, sustentável. Ela é condição necessária para a garantia de direitos, começando pelo direito fundamental à educação”, finalizou.

 

Matéria originalmente publicada em: https://nacoesunidas.org/brasil-precisa-ampliar-investimentos-na-educacao-de-jovens-e-adultos-alertam-especialistas/